2 | Adria, mulher, preta e professora
Origem: spotify
Descrição
Nos anos de 1970, Adria Maria Bezerra ia no footing na Praça XV de Novembro. Brancos ficavam de um lado, pretos de outro, até o dia em que ela e um grupo de amigos decidiram que precisavam dar um jeito de misturar todo mundo.
Neste episódio da temporada Escuta-qui, a história recon(r)tada, eu conto como nasceu o movimento negro e o movimento de mulheres em Ribeirão Preto à voz da militância de Adria.
Esta temporada é financiada por meio da Lei Paulo Gustavo de Incentivo à Cultura, da Secretaria Municipal da Cultura de Ribeirão Preto - Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.
Acesse o site www.escutaquipod.com.br
Transcrição
Que que você quer saber
que que você vai querer
ah, eu vou querer você
ah é que legal
Essa temporada é financiada pela lei
Paulo Gustavo de Incentivo
à Cultura
da Secretaria Municipal da Cultura
Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto
Há alguns anos
eu tava caminhando
entre os estandes da feira
internacional do livro
de Ribeirão Preto
e uma cena me chamou a atenção
no estande da CUFA
que é a Central Única das Favelas
uma mulher preta que eu
conheço há muitos anos
empunhou o microfone
e com uma voz forte
disse que aquele era
um ato de ocupação
de reparação histórica
a justificativa
na sua juventude
a Praça XV de Novembro
a mais importante
e central da cidade
não podia ser frequentada
por pessoas pretas
o footing na praça
que era o rolê da
sua juventude
não era permitido
pra pessoas pretas
eu sou Adria Maria
Bezerra Ferreira
é a história da
Ribeirão Preto da Adria
que eu vou te contar
neste episódio
eu sou a Dani Antunes
e esse é o escuta aqui
um podcast
orgulhosamente caipira
aqui eu conto histórias do
interior de São Paulo
esta é a temporada
Escuta-qui, a História Recon(r)tada
em cada episódio
eu recorto uma parte da
história de Ribeirão Preto
e reconto
por meio da vida de uma mulher
neste episódio
você vai saber como a Adria
neta de indígena
filha de militar
viveu a juventude nos
anos de 1960 e 1970
em Ribeirão Preto
Escuta-qui essa história
no final dos anos 1990
um desenho animado fazia
muito sucesso na TV
na introdução
o narrador detalhava
a composição
das heroínas
açúcar
tempero
e tudo que há de bom
acrescido do elemento x
que as fez ter super poderes
as meninas
super poderosas
quando eu tava
escrevendo esse roteiro
me lembrei disso
porque contando
a história da Adria
os elementos que a formam
como mulher ficam evidentes
acompanha comigo
avó indígena
aprendi as questões de
gênero com a minha avó
uma mulher que foi vendida
aos 12 anos de idade
pra um homem branco
teve uma filha
que foi a minha tia
aos 14 anos
ela fugiu desse homem
porque sofreu violência doméstica
o pai militar
meu pai sempre
colocou na cabeça
vocês têm que estudar
vocês são pretos
mas têm que estudar
a gente não pode baixar
a cabeça pra nada
a mãe dona de casa né
e minha mãe sempre foi
uma pessoa calma
tranquila
meu pai também
e com meu pai e minha mãe
eu aprendi as
questões raciais
meu pai precisava
muito disso
e a madrinha
descendente de italianos
que foi quem lhe deu o nome
Por que Adria
porque os avós delas
aliás os pais dela
filho de italiano
vieram da Itália
da cidade Adria
fica mais do rio adriático
foi trazido através
do navio Adria
para o Brasil
primeiros imigrantes
italianos né
e daí ela deu meu nome pra
lembrar sempre a família
o Magistério foi a profissão
escolhida pelo
pai eu queria
fazer história
queria fazer geografia
o pai falou assim
não vocês vão
pro Magistério
vão ser professores
pai e mãe da Adria se
conheceram em Natal
quando ele se preparava
pra embarcar pra Itália
no contingente da Força
Expedicionária Brasileira
a FEB
meu pai saiu de São Paulo
foi para o Rio Grande do Norte
no contingente do exército
pra embarcar pra Itália
porém qual era o final da guerra
então
essa tropa que estava meu pai
não embarcou pra Itália
porque a guerra terminou e eles
permaneceram em Natal
que ali era a base militar
pra sair para a Europa
a carreira militar do pai
fez a família viver em
muitos estados brasileiros
antes de chegar em Ribeirão Preto
então a gente saiu do
Rio Grande do Norte
meu pai tinha seis filhos
fomos morar em Recife
onde nasceram mais dois filhos
então já foram oito aí
depois nós passamos
pelo Rio de Janeiro
e ficamos alguns meses no Rio
do Rio de Janeiro foi
um tempo pra São Paulo
e lá nasceram mais 3 irmãos
e o restante dos irmãos
nasceriam em Ribeirão Preto
isso aconteceu nos anos de 1960
naquela época
Ribeirão tinha uns
130 mil habitantes
Dumont e Guatapará
ainda eram distritos
e Ribeirão Preto terminava
na 9 de Julho
a 9 de julho era a rua dos barões
era como se fosse
a Paulista na época né
e ali morava somente
só pessoa de posse
pode ver que ainda tem alguns
casarões
dessa época... tal né
a cidade aí já tinha vila Virgínia
nessa vila Virgínia
morava somente preto
tanto que nem meu
pai quis morar ali
era só preto
bem pobre mesmo
é quando se fosse uma favela
da Avenida Francisco Junqueira
até o final da cidade
que era na nove de julho
dava uns dez quarteirões
eu contei no Google Maps
e hoje são mais de
40 quarteirões
até a cidade acabar
os Campos Elíseos terminava
no Cemitério da Saudade
menos de 20 quarteirões
no sentido oposto
eu também contei
a cidade tinha
5 escolas públicas
eu sei que a a
aí eu vim pro curso
normal do Otoniel Motta
e nem do Otoniel Mota
eu e minha irmã não podemos
entrar no primeiro ano
que o Otoniel Mota
era a única escola
de ensino médio de
Ribeirão Preto pública
e essa escola
ela era destinada
somente para as famílias
mais abastadas
ali tava os Biagi
ali tava os Matarazzo
ali tava os Balbo
era essas famílias que
tinha direito né
pra gente provar que
a gente poderia estar
dentro do Otoniel Mota
tinha que passar
por uma seleção
pra provar
porque naquela época
ser professor tinha status
era status
e muitas mulheres ricas faziam
magistério pra ter status, né
aí nós começamos no Metodista
meu pai conseguiu uma bolsa
naquela época no Metodista
e a partir do segundo ano
eu fui pro Otoniel Mota
aí eu tive que prestar
uma prova
pra provar que a gente era capaz
que alcançava
justamente os ensinamentos
do Otoniel Mota
terminei ali meu
curso de magistério
formada, a Adria passou
a dar aulas na escola
Dom Luís do Amaral Mousinho
que fica no bairro Campos Elíseos
da vida ... pra mim
a minha
a minha vida não foi difícil
meu pai
minha mãe é proporcionaram
pra minha família
pros meus irmãos
uma vida fácil
a gente não tinha necessidades
só depois que a gente veio saber
quando a gente
começou a entender a a
os percalços né
que minha mãe e meu pai
passaram pra oferecer pra gente
o que tinha de melhor
aí quando eu passo
a ter minhas amigas
empregadas domésticas
que eu venho entender que
minha vida era maravilhosa
eu tinha até vergonha de falar
da minha vida em frente
às dificuldades que minhas
amigas passavam
da gravidez precoce
dos abusos que
sofriam dos patrões
que pra gente
pra mim
era inimaginável
coisas que eu nunca
passei na minha vida
entende?
mas aí quando a
gente vê a vida assim
do outro
dos mais pobres
as dificuldades
a gente passa a entender
melhor as coisas
a gente passa a dá
sabe dá
satisfação
da vida que a gente tem
com aquilo que a gente tem
porque outras pessoas
nunca vão ter
e a gente passa a
ser mais sensível
e olhar o mundo diferente
é o que eu olho hoje
o mundo diferente
e é aqui que o Elemento X
entra na fórmula da Adria
e logo em seguida que
eu terminei o meu
curso de magistério
dois anos depois
eu consegui ser
estagiária da Prefeitura
eu consegui ser estagiária
foi em 1966
ser estagiária da Prefeitura
e sendo estagiária da Prefeitura
fui trabalhar em escola
porque a única escola
que tinha realmente
garantida da Prefeitura
em Ribeirão Preto
era o Mousinho
que não era o
nome de Mousinho
era a escola municipal
dos Campos Elíseos
aonde eu tinha estudado antes
escola municipal dos
Campos Elíseos
primeiro
veio pro outro espaço
que é em frente ao Bosque
hoje é Dom Luís do Amaral
Mousinho ... certo
e foi ali que eu fui trabalhar
dali eu fui pras escolas isoladas
e o que é escolas isoladas...
pra escolas
aonde era somente
uma sala de aula
nas localidades mais
distantes de Ribeirão Preto
aí fui trabalhar numa favela
uma favela
a favela do Pau do Urubu
ali houve um espaço mais longe
naquela época não
tinha a Coca-Cola
só tinha a linha do trem
o resto era tudo canavial
então tinha que passar
no meio do canavial
ia lá pra rua Rio Formoso
nessa rua Rio Formoso
já tinha uma favela
como a maioria do favelado
do pessoal da favela
dos moradores,
eram pretos
então daí chamado
Pau do Urubu
tá, ali tem uma sala de aula
conviver com as
pessoas daquela favela
foi só uma parte do
elemento que deu
superpoderes pra Adria
a outra era um tanto
mais desafiadora
pra uma jovem professora
e é como que era antigamente
os pais pra ter as filhas
exercendo a função de professora
eles construíram
compravam um
terreno bem distante
construíam uma sala de
aula e falava pra Prefeitura
olha eu tenho uma sala onde
posso montar uma escola
e a minha filha ser professora
aí a filha dele ia ser
uma professora ali
a Prefeitura permitia
começava a pagar essa professora
e depois de um tempo
um mês, dois meses
ela ia ocupar o lugar
de uma outra pessoa
que depois era
transferida lá pra favela
eu fui uma delas
e mais duas colegas
ah era itaíldes
está viva ainda
e tinha a Lúcia,
que já faleceu
e passei 5 anos lá
e por incrível que pareça
ali foi o lugar mais
feliz da minha vida
por que
porque eu gostava do público né
o público era muito
correspondente
entende
com as nossas aspirações
as mães
as crianças
ela, a Itaíldes e a Lúcia
iam e voltavam juntas
tem que passar no
meio do canavial
tomavam um ônibus
até a linha do trem
e depois seguiam pra
sala de aula a pé
por uns três quilômetros
então nós eramos muito
solidária entre nós, sabe
então a gente procurava,
as três ir de manhã
pra ninguém ficar sozinha
esse ficávamos o dia inteiro
pras três voltarem juntas
isso foi muito legal
a gente era muito solidária
nesse sentido, né
viver aquela realidade
no Pau do Urubu
ah na época eu tinha 18 anos
depois se engajar na
associação dos trabalhadores
da Prefeitura
que se tornou sindicato nos
anos 1980
lá eu fui secretária
foi a primeira mulher de uma
diretoria da associação
servidores municipais
de Ribeirão Preto
ver de perto uma realidade
que não era a da sua família
fizeram a Adria conhecer
um outro lado da vida
e deu também a inspiração
pra se engajar
em tantos quantos fossem
os movimentos
e as causas pelas
quais se interessou
esse olhar diferente pro mundo
a levou pro movimento de mulheres
tô voltando lá pros
anos 70 e pouco
78 ...
os conjuntos foram entregues
aí a infraestrutura
a Adria tá falando aí da
formação do bairro
Parque Ribeirão Preto
só tinha esgoto e a água
mas as ruas sem asfalto
sem iluminação
sem creche
sem escola
sem base militar
sem transporte urbano
sem linha de telefone
né que não era
nem celular que não existia ainda
os homens saíam pra trabalhar
era o pessoal que era
naquela época
não tinha lixo ainda
de recolhimento de lixo
mas era o pessoal
que era pedreiro
pintor, carpinteiro
trabalhava em pequenas fábricas
vendia doce na rua
vendia verdura, né
carroceiro
e as mulheres se organizavam
aí as mulheres passam
a se organizar
pra levar esses benefícios
pra seu espaço
até que a gente passa
a se deparar com
as injustiças do Brasil
que a gente pensa assim, opa!
nossa vida não é só isso
e nós quando é que a
gente vai olhar pra nós
quando é que vão pensar na gente
no caso
pra políticas públicas
pras mulheres
como saúde
creche, delegacia de mulheres
a luta começa nos anos 70 e pouco
e temos somente 7 políticas
públicas em Ribeirão Preto
de direito das mulheres
a gente briga muito
a gente fala ...
vocês não são donos
dos nossos corpos
respeita os nossos corpos
né
respeito é importante
isso faz em todos os segmentos né
em termos de educação
saúde trabalho
bom mas o que me fez querer
muito ter a Adria nesta série
foi o footing na Praça
XV de Novembro
lembra?
1970 e pouco ...
a história começa assim
a irmã da Adria
Maria das Graças
ela já faleceu
foi estudar em São Paulo
e ela morava numa república
ali no Bixiga
só que a Maria das Graças
tinha um sonho
mas ela falava o seguinte
eu vou morar na Paulista
eu quero morar na paulista
não só ela
como tinha outras
meninas pretas
que também queriam,
tinham esse sonho
e não bastava querer
tinha que poder
cada 15 dias eu saía
de Ribeirão Preto
aí eu ia pra casa dela
e de lá a gente ia procurar
apartamento na Paulista
e na cara dura
todo mundo falava assim:
não, aqui a gente não aluga
nem pra negro e nem pra japonês
Maria das Graças insistiu
até conseguir
até que encontraram
um apartamento
mas pra ela encontrar
aquele apartamento
ela teve que levar
uma colega dela, branca
Paulista com a
Brigadeiro Luiz Antônio
prédio das Nações Unidas
aí foi minha mãe
minha irmã
mais três colegas pretas aí
depois elas aumentaram
com mais 2
no final eles moravam em 5
6 pessoas ali
moraram por 10 anos
nesse período
minha irmã conhece
um trabalho
muito interessante de São Paulo
Chamava CECAN
Centro de Cultura Negra
São Paulo
tá ali no Bixiga
e sempre que ela vinha
pra Ribeirão Preto
ela falava assim
nossa lá em São Paulo
aqui, a gente já queria
discutir o movimento negro
e não sabia como discutir
e aqui em Ribeirão Preto
a turma da Adria
tava procurando uma forma
de se organizar
também como movimento negro
e nesse momento a gente ia
fazer o footing na Praça XV
e era dividida Praça XV
Duque de Caxias era somente
o passeio dos negros
na General Osório
passeio dos brancos,
aí não se encontravam
e aí de quem de nós passasse
pro outro lado
era guerra
porque ali não era permitido
porque ali não era o nosso espaço
isso foi durante
muitos anos né
e o que era o footing
é os homens ficavam parados
e as mulheres é que ficavam andando
era ali que você encontrava
os seus namorados
futuros namorados
entende
a gente ia ali das da
Álvares Cabral
até a Visconde de Inhauma
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
e por sua vez os brancos
ficava também do Pinguim
até a Visconde de Inhauma
também pra lá e pra cá
as meninas brancas
e ali era
local de pobre
não era
local de rico não
tantos brancos quantos pretos
eram pobres né
porque as meninas ricas
não iam pra praça
as meninas ricas tinham Recreativa
tinha Regatas
tinha outros espaços pra elas né
as brancas
é as meninas brancas e ricas
preto rico não existia
a maioria era empregada doméstica
os homens tavam tudo
ainda no canavial, alguns
outros tavam trabalhando
em empregos, como
pedreiro
carpinteiro
serralheiro né
eu lembro que quando meu pai
quis ser sócio do Palestra, né
o Palestra falou que
a gente não podia
porque eles fizeram investigação
e foi informado pro clube de que
nós não tínhamos bom comportamento
né, que nós eram pessoas
que não tinham, como se dizer,
idoneidade
e eu tinha 12 anos que
era a mais velha
porque então ficava no
imaginário das pessoas
mesmo seu pai sendo militar
sim mesmo sendo militar
aí meu pai um dia falou assim
eu quero isso por escrito
onde minhas filhas não
tem idoneidade moral
minha filha mais
velha tem 12 anos
se vocês colocarem
por escrito eu aceito
agora caso contrário, não
e ele não
nunca colocaram por ele
preferiram depois de alguns
anos aceitar meu pai
mas nunca colocaram por escrito
meu pai faloueu entro na justiça
vou entrar na justiça né
aí quando a gente
minha minha irmã
em São Paulo, certo
minha irmã conhece esse
espaço, o CECAN
um dia eu cheguei e falei assim
gente, vocês êem que
conhecer o CECAN!
é lindo
é maravilhoso
ali a gente discute
discute a questão racial
a gente discute a história dos negros
do jeitinho que o papai falou ... tal
aí eu fui em São Paulo,
e conheci o espaço
então, ali eu conheci
pessoas importantes
ali eu conheci a Matilde Ribeiro
que ela era
inclusive
do sindicato dos metalúrgicos
São Paulo já discutia questão
racial há muitos anos
o interior
tava bem longe disso
ali eu conheci
o Hamilton Cardoso
que era jornalista da Folha
o Maia Maia
que era um maestro negro
a Teresa Santos
o Osvaldo Faustino
o Osvaldo Camargo, né
ali eu conheci o
Abdias do Nascimento
era o que eu queria
te perguntar, você conheceu o
Abdias do Nascimento ...?
eu fiquei hospedada três
vezes na casa do Abdias
aí foi através do CECAN
que eu comecei a entender
as questões
raciais
ali tava na Teresa Santos
o pessoal era um pessoal assim
bem da elite negra
pensante
ô Adria
vamos voltar pra Ribeirão ...
aí vocês faziam o footing
isso não
aí tudo bem aí aí
aí conhecendo o
trabalho do CECAN
aí começamos a entender
vamo começar a levar esse
trabalho pra Ribeirão Preto
pra discutir
e como a gente tava iniciando
o grupo teatro negro
a gente começou a discutir
não era nem grupo
é grupo de estudos
hum começou com grupo de estudos
a gente trouxe a ideia
começava a discutir entre nós
aí, quem chegou
em Ribeirão Preto?
o mestre Miguel
capoeirista da Bahia
onde ele traz essa
questão da capoeira
pra Ribeirão Preto
é aquele grupo ele
ele ele forma um
grupo de capoeira
o Cativeiro
primeiro grupo de capoeira
de Ribeirão Preto
e as mulheres não podiam
ele era muito rígido
só quem vai fazer
capoeira é homem
mulher, não
mas nós podíamos assistir
os ensaios da capoeira
e todas as mulheres
queriam ir né
porque era bonito né
tudo encorpado, né
a gente ia assistir
aí passamos a perceber
né o olhar dos homens
em cima das meninas
paquerando as meninas
saindo com as meninas e
as meninas grávidas
aonde eles não
reconheceram os filhos
aí que passamos gente
nós temos que começar a fazer
uma discussão com as meninas
com os rapazes né porque
não dá pra aceitar tudo isso
a gente tá vendo
e de repente tá
acontecendo as coisas aí
a violência tal
passamos a fazer esse trabalho
com os meninos
antes de começar
os ensaios da capoeira
o mestre Miguel permitiu
porque ele era muito humilde
ele permitiu
só que depois a gente
viu que não era por aí
somente falar numa
roda de capoeira
e o pessoal tava ansioso
pra ir pra capoeira
e não pra ouvir a gente falar né
aí resolvemos fundar
um grupo de teatro
aí fui eu
mais duas irmãs
mais um amigo e o Pedro Paulo
dois amigos e eu
a Graça ...
a Tica, o Dionísio e o Pedro Paulo
aí fundamos o grupo de teatro
aí levamos o grupo
teatro negro Travestia, né
fizemos várias ações aqui em
Ribeirão Preto
e a gente fazia o quê
além de tá levando pra capoeira
grupo de teatro com
pequenas falas
quando chegaram no
baile do povo negro
que a gente fazia
a gente invadiu o baile
já com teatro
dançando
cantando
o povo rodeava a gente
como vocês vão
terminar um baile assim
entrar no meio do baile e tal né
onde que era esses bailes?
ah a gente fazia no ...
sabe onde ele fica a toca?
é toca, aquela papelaria ali
ah sei, a MEC-Toca
isso, MEC-Toca
isso era ali
ali é o grupo
ali é o salão
do clube de Regatas
se não me engano
eles alugavam ali, pra, né
os bailes eram ali
o baile da população
negra sempre foi ali
e tinha bailes também
que era aí na rua
Mariana Junqueira
no sindicato
não lembro o nome
mas era um sindicato
que hoje tá alugado
pra escritórios né
também era um salão pequeno
mas era vários
e tinha união geral
dos trabalhadores
a UGT e ali
acontecia os bailes
e ali a gente, sabe
entrava
revolucionava
e o teatro
ele ficou tão famoso depois
que passou
foram vinte anos de teatro
do grupo Travestia
Travessia
20 anos de teatro
até a Secretaria de Cultura
do Estado passou a convidar
o grupo de teatro
pra outras cidades
pra outras festividades
que tinha nessas cidades
chegamos até Uberaba,
Igarapava
e andamos aí
aí a o festival
comunitário negro
zumbi, ia pras festas né
Araraquara
São Carlos
Campinas
chegamos até no
Rio de Janeiro, viu
sempre assim
discutindo as questões raciais né
então a gente passou um
costume e outros grupos
depois foram criados
em Ribeirão Preto
isso foi muito benéfico
era o grupo do teatro do negro
era isso
é grupo do teatro negro
isso durou quanto tempo?
20 anos
20 anos
até que ano
mais ou menos até 1990...
98...
por aí, 99 ...
a Adria tava ali
pra lá e pra cá no footing
segregado
mas, ela descobriu que
poderia fazer alguma coisa
pra misturar aquela gente toda
foi lá e fez
a gente ia final de semana
de sábado de manhã pra praça
a gente fazia o nosso
teatro na praça
nossos teatros eram
todos temas raciais, né
e à noite
a gente ia pra praça
e falou assim: vamo fazer o
teatro do lado dos brancos
e a gente colocava e as
nossas falas eram pesadas
a gente passava na praça gritando
vocês são todos racistas!
vocês são racistas!
mas vocês não vão a
não vão influenciar
a minha mente
era assim, certo
o pessoal assustava tal
muitos recuavam
porque achavam
esse povo é tudo doido, né
tudo louco, né
mas era uma encenação
e aí a gente começou através
da roda de poemas
de poesias que a gente também
fazia na Praça XV
começou também a ir pro
lado dos brancos fazer a roda
na praça
roda de poemas
aqui do lado da Duque de Caxias
o povo ia se afastando porque
tinha medo da gente
a General Osório, e assim
nós fomos quebrando
alguns paradigmas
em Ribeirão Preto
quer dizer
fizeram uma
invadiram o espaço
sem invadir
sem invadir certo
através da cultura né
dos três campos aos quais
a Adria se dedicou
dois falam mais alto
ó eu fiquei muito assim
nas questões raciais e
na questão das mulheres
que é o meu campo de trabalho
sim, né
e de sobrevivência
de vivência
afinal eu tô te contando a
história de uma mulher preta
sim eu sou uma das
confundadoras da Casa da Mulher
uma coisa que eu gosto de fazer né
ela é covereadora no
Coletivo Popular Judeti Zilli
mesmo que eu
esteja no Coletivo
eu não quis ir pra Câmara
quis ficar aqui
tem um trabalho que a gente
tem que segurar, certo
porque né
não é chegar uma ONG e entregar
pra uma pessoa que
não conhece a história
o trabalho é acolher
mulheres em situação
de vulnerabilidade
e também ir em
comunidades pra falar
e ouvir
a gente trabalha com
três comunidades
aqui em Ribeirão Preto, né
a tanto que sábado agora
a gente tava na Locomotiva
fazendo uma roda
de conversa sobre
paternidade afrocentrada
esse papo com a
Adria foi gravado
em 2024
com assistentes sociais
meninas que já
trabalham nessa área
daqui de Ribeirão Preto
mostrar a questão
da importância da paternidade
do povo negro
do homem negro
como é que o homem
negro educa seus filhos
como é que ele vê a
educação da mulher
de que forma ele participa
da educação desses filhos
então foi a primeira vez que
a gente fez uma roda
com homens e mulheres
que se dispuseram a estar juntos
as mulheres também vão
até a Casa da Mulher
porque elas querem saber
quais são os direitos delas
de que forma ela pode sair
da violência que elas estão
e com mais de duas
horas de bate-papo
eu perguntei se ela achava que
tinha mudado de fato
a vida de alguém
e ela me contou várias histórias
como a de um casal de egressas
do sistema penitenciário
que começou a trabalhar
abriu seu próprio negócio
e ingressou na faculdade
e nesse período que ela mostrou
que ela sabe cozinhar
ela foi contratada pelo
SENAC pra trabalhar
além dela fazer o curso
trabalhar também
no curso
ganhando pelo SENAC,
e ela tá lá, né
feliz da vida
a família que não acreditava nela,
no dia de formatura
claro que não ia
de repente a família inteira
apareceu na formatura
eu tava lá na formatura dela
chorou de alegria
felicidade né
a família reconhecendo
o trabalho dela
da forma né
que ela tá conduzindo
a vida dela
e quando a gente acha que
o perfil da Adria terminou
ela vai lá e abre mais uma aba
temos também a questão
dos direitos humanos
sobre a questão da moradia
a questão da educação
que a gente faz um trabalho
com as mulheres
tem o curso de
promotoras populares,
de direitos humanos
a gente forma
mulheres pra trabalhar em
outros segmentos sociais
sobre a questão da
violência contra mulher
de que forma você pode coibir
e quais são os espaços
que você pode buscar
pra minimizar essa
questão da violência
e aqui nós fazemos parte
também da Frente
é da Rede Nacional de
Mulheres Negras
todo o trabalho voltado
para as ações raciais
em todas as áreas
fazemos parte também
da Rede Nacional de
Promotora Legais Populares
e também da Rede Estadual
a gente tem reunião
a cada quinze dias
e estamos formando
agora a rede regional
de mulheres pretas
pra trabalhar com a questão racial
sabe, então essa é
uma coisa ampla
é uma coisa legal
gostosa sabe
a gente vai trabalhar
com São Carlos
Araraquara
aqui até Luiz Antônio
a Santa Bárbara d'Oeste, né
toda essa região aqui
a gente
tem mulheres, né
que a gente faz a ponte
e cada um depois
vai formando os seus
grupos dentro da sua cidade
essa é a Adria
tá certo Adria
eu falo o que eu tiver que falar
eu falo mesmo
não quero nem saber
na minha idade não dá
mais pra esconder nada
que dia que é seu aniversário?
1º de novembro ...
este é o Escuta-qui um
podcast orgulhosamente caipira
aqui eu conto histórias do
interior de São Paulo
este episódio faz parte da temporada
A História Recon(r)tada
financiada pela lei
Paulo Gustavo de
Incentivo à Cultura
da Secretaria Municipal da Cultura
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é tudo isso que faz
uma podcaster feliz
a trilha dos episódios
dessa temporada
é do músico Fábio Bergamini
do Rubinho Antunes e
do Grupo Pó de Café
os sons são do FreeSound
da biblioteca de áudios
do YouTube e do
Fábio Bergamini
esse episódio foi gravado
no estúdio Nova Nave
até a próxima
