2 | Urgência de viver
Origem: spotify
Descrição
Em 9 de novembro de 2019, Helena Costa morreu. No dia anterior estivemos juntas até 22h30, tomando cerveja e comendo torresmo no Brasília, um bar tradicional de Ribeirão Preto (SP), onde o jogador Sócrates tinha mesa cativa. Lá a gente acompanhou os sofrimentos da política nacional dos últimos anos e naquele dia fomos comemorar a soltura do Presidente Lula.
No mês seguinte, em dezembro, a COVID-19 surgiu na China e neste ano de 2020 uma pandemia sem precedentes históricos (nem a Gripe Espanhola é comparável) nos confina e faz pensar, criar e ter saudades.
Esse episódio é sobre o que a gente quer da gente depois da pandemia. Mas, também é um encontro sonoro com a Helena, que faz falta ao mundo pela dedicação que teria à sua profissão na saúde e aos cuidados que dispensaria aos amigos e aos filhos em um período de tanta fragilidade física e emocional.
As histórias, ao contrário do corpo, não morrem.
O episódio foi gravado no meu quarto, com meus gatos. Foi editado no meu computador e tem trilha do Rubinho Antunes, do disco Expedições, disponível nas plataformas de streaming.
Transcrição
(Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa.)
Dia desses, no meio do isolamento social, exigido pela Pandemia de Covid-19, eu e umas amigas começamos a nos lembrar da Helena, uma amiga que foi embora em novembro passado.
"Vamos ver se a gente faz alguma coisa no fim de semana, vamos tentar fazer pelo menos uma comidinha, se você não tiver ocupadíssima, tá bom, um beijo, boa viagem."
Ela era do tipo que estava sempre pronta a fazer uma comidinha, tomar uma cervejinha.
"Ou, não vamos lá não, é melhor ir no centro mesmo comer porco, não podemos morrer e perder órgão nesse momento, não"
Nessa conversa, ela concluiu uma combinação com a Patrícia: a ideia era ir no boteco da periferia de Ribeirão Preto, comer um dos melhores torresmos da cidade, aí foram avaliando os riscos.
"Seu risco ainda é maior porque você é loirinha do olho azul, você pode ser sequestrada porque a sua chance de ser confundida com uma milionária é muito maior que a minha, entendeu! Sem falar que no mercado negro o meu rim vale uma coisa, mas os seus olhos azuis, eu acho que valem mais, viu"
Bom, a Helena morreu, e não foi no boteco com a Patrícia, foi comigo, um dia antes de falecer, fomos no Brasília, um dos mais tradicionais da cidade, onde a gente bebia e comia para comemorar ou afogar as mágoas da política brasileira.
Era uma tradição.
A Helena morreu um dia depois do Lula sair da prisão. Estava felizona, vestida num longo vermelho toda adornada na comemoração.
Nós, as amigas, sempre nos perguntamos o que ela estaria fazendo agora, ela imaginava as maiores desgraças da vida, tinha um bom repertório para isso.
"Ou, deixa eu te falar uma coisa, você não pode salvar o WhatsApp da sua mãe escrito mãe. Porque se você for sequestrada, ou se eles quiserem, ou se você perder o celular, eles quiserem ser, passar um trote na sua mãe, arrancar dinheiro dela. Eles vão ligar para ela, que vai saber que ela é sua mãe. Você tem que salvar como Luzia, você não sabe se cuidar contra sequestro não"
Mas parar o mundo, obrigar todos a serem tão virginianos quanto ela, isso nem em sonho ou em pesadelo.
Ouvindo os áudios e lembrando das histórias com as amigas, eu pensei, a Helena tinha urgência.
Vou dar um exemplo, ela encafifou que a gente tinha que viajar muito. Fomos para o Rio Grande do Norte primeiro, em 2018, em 2019, com a viagem comprada para Maceió, ela inventou que a gente ia também para Florianópolis, e eu fui né.
No meio disso, ela foi em show, foi para São Paulo.
"Ah, a gente pode ver se descolar mais gente que queira ir, a gente pode ir de carro, com meu carro mas em princípio a gente vai de busão."
Foi para cachoeira, trilha, para o mato, para Minas, ela tinha urgência, agora, seis meses depois da nossa última cerveja com torresmo, a gente sabe o motivo.
O confinamento estimulou muita gente a fazer crochê, cozinhar, a bordar, ler, ouvir música, adotar um animal, pintar a própria casa, olhar mais para dentro, com mais tempo, menos pressa e pode ter criado novas urgências.
"Eu estou tão entusiasmada, menina, mas estou tão entusiasmada que eu já quero começar a a bordar outro hoje, mas não vai dar hoje."
Eu, tinha urgência de ir para Europa, por exemplo.
"Um sei"
Aí pintei o apartamento, e perguntei para as amigas, qual é a sua urgência?
"Urgência"
Teve uns sua louca no caminho.
"Por que que você quer que eu grave um áudio para você, sua louca.
Mas o resultado da experiência, que era só para falar da urgência de viver da Helena e que significa essa urgência de viver foi muito bonito.
"Eu tenho urgência de nada, bem! Aliás, a palavra urgência já me dá até apavoramento, quero calma na vida, não tenho urgência de nada."
A Maria Augusta vive em Santa Rosa de Viterbo, onde a vida passa mansa e vagarosamente.
"Urgência já me lembra emergência".
Calma, Maria, não é para apavorar.
"Fala de urgência, ai que coisa triste".
Não, Maria, também não é para ser triste. Pode ser uma urgência doce, meio comum nesses dias.
Como a da Meire.
"A minha urgência é abraçar e beijar muito as pessoas que eu amo".
A da Pamela.
"É poder ver meus amigos, abraçar, beijar, dar risada e tocar nas pessoas, sentir"
Da Rosa.
"é abraçar e beijar e festejar com todos os meus amigos, como se não houvesse o amanhã"
Da Laura
"Sair para encontrar com os amigos".
Da Lilian
"Eu acho que é abraçar. Abraçar muitas pessoas diferentes, assim muitos lugares não tem que cumprimentar com, falando para baixo assim com uma viradinha de cabeça sabe, ou com uma máscara que não deixa ver o sorriso. Eu quero abraçar".
Ainda que a resposta gere dúvidas.
"Fiquei pensando, será este ou se era água, porque a água é outra urgência minha. Qualquer água, mar, piscina, cachoeira, qualquer coisa, mas acho que abraçar ainda é mais."
Ou provoque reflexões.
"É olhar para mim, olhar mais para mim, como mulher"
Urgentes como as da Carlota.
"Olhar para minha a liberdade, olhar para os meus desejos, eu acho que eu deixei eu muito de lado entendeu, agora está na hora de pôr eu mais no centro da minha vida".
Da Patrícia.
"Deixar de ser tão racional, isso me escraviza sempre, escravizou, me deixar levar mais pelo meu instinto, pela minha sensibilidade e acreditar mais em mim."
E da outra Patrícia.
"Não sei qual, é minha urgência."
Que pensa que não sabe.
"Que eu estou numa crise existencial, em processo de autoconhecimento."
E também não perde a oportunidade.
"A minha agência é pelo impeachment do presidente Bolsonaro."
Responder, nem precisa ser muito urgente.
"Continuo pensando aqui eu estou pensando também que a minha urgência é ter um sotaque charmoso como da Pamela, os olhos azuis como da Patrícia, o bom humor da Laura , a inteligência da Daniela."
Daniela, sou eu.
"Huuummmm , sei".
E a resposta pode ser também pragmática, com direito ao sotaque charmoso da Pamela, que é chilena.
"É melhorar um pouco minha inteligência financeira, organizar, ver meus dinheiros, dívidas todo, parar de procrastinar, tenho ideias muito boas, muito geniais, demoro muito para colocar em prática, que essas ideias saiam do papel."
O que não deixa de ser uma urgência da helena.
"Menina do céu, que jiló é esse que a sua mãe fez para mim. Eu estou enlouquecida, eu já comi quase um vidro inteiro."
Que se esbaldou no jiló da mãe da Patrícia, aquela do autoconhecimento e já queria transformar em empreendimento.
"Ela acabou de sair daqui, eu sentei aqui na varanda, abri uma latinha de cerveja, arregaçou com a minha dieta. Tô comendo jiló com torrada, mas é a coisa mais deliciosa do mundo. Olha, fala pra ela que se fudeu, porque eu vou comprar mais jiló pra ela fazer, viu, a gente precisa vender isso que a gente vai ficar rico."
Mas era.
"Eu sou, prole, proletariado, está bom."
Enquanto a pandemia não passa.
"Eu tenho certeza absoluta que coisas boas vão acontecer."
A gente pode se reunir virtualmente e subir o som do otimismo, editando áudios antigos de whatsapp e tentando imaginar como seria o grupo das Chasconas, que é o nosso grupo de amigas do whatsapp.
"Chasconas onde muita gente usa no chile, quando a pessoa não está com o cabelo penteado, está com o cabelo do pega, tudo virado, então normalmente a gente fala que as crianças estão chasconas, as pessoas estão chasconas, quando eu faço muita coisa, as pessoas que normalmente não penteiam muito cabelo, não tenho costume assunto chamadas de chasconas".
Tipo eu.
"Pessoas com muito cabelo cabelo, cacheado também são chamadas assim"
Eu de novo.
"E nosso grupo em particular, chama-se por a gente começou a conversar de Pablo Neruda, da influência dele, da poesia, de tudo e eu contei a história de que uma das casas dele, que é a casa de Santiago, ela chama casa das Chasconas, e ele colocou esse nome pela amante, que ele tinha porque era uma mulher de cabelos cacheados e muito cabelo e ele apelidava ela de Chascona, era um apelido carinhoso que eles tinham e virou o nome de nosso de nosso grupo, por essa esse apelido carinhoso que o Pablo Neruda usava e que é aconteceu que toooo todo mundo no grupo gostava, algumas pessoas já conhecia nessa casa, mas não conhecia na intimidade dessa história."
Com a Helena e as suas urgências.
"Vamos ver se a gente faz alguma coisa no fim de semana, vamos tentar fazer pelo menos uma comidinha se você..."
As urgências desse podcast são as da Carlota Henriques, Laura Contatore Badra, Lilian Vieira, Maria Augusta Mussolin, Meire Souza Santos, Patrícia Torres, Patrícia Viladouro, Pamela Urrutia e Rosa m
Enquanto você pensa nas suas urgências.
"Eu tenho certeza absoluta que coisas boas vão acontecer por lá, né, ano novo, nossa, seu ano astral vai começar agora, vida nova, um monte de novidade boa, queria poder te dar um abraço de feliz aniversário ó boa viagem."
A gente segue querendo abraçar essa amiga, que nos faz muita falta, principalmente nas dicas de saúde e limpeza da casa e dos caldos imbatíveis no inverno, mas da qual sempre contaremos histórias, as histórias afinal não tem fim.
Eu sou a Daniela Antunes, e essa é mais uma história.
Valeu!
