Pular para o conteúdo
1 | Kelly, a candidata à rainha da sucata

1 | Kelly, a candidata à rainha da sucata

Origem: spotify

Descrição

Kelly Cristina da Silva é mais conhecida em Ribeirão Preto como a Kelly do Catasonho. O projeto que tem o potencial de mudar a vida de pessoas que vivem na rua, sobrevivendo da coleta de recicláveis, é também o que mudou o seu nome e a história da sua vida.

Neste episódio da temporada Escuta-qui, a história recon(r)tada, eu conto a história de vida da Kelly com um recorte para a história da coleta de lixo em Ribeirão Preto.

Esta temporada é financiada por meio da Lei Paulo Gustavo de Incentivo à Cultura, da Secretaria Municipal da Cultura de Ribeirão Preto - Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.

Acesse o site www.escutaquipod.com.br

Transcrição

Essa temporada é financiada pela Lei Paulo Gustavo de incentivo à cultura da Secretaria Municipal da Cultura, Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.

Eu tenho 49 kg, 1,60 m. Essa é a Kelly. Numa caixinha de sapato, eu cabia. Isso foi quando ela nasceu. É, chamava o bar, chamava baronesa. Em Osasco, na grande São Paulo. Eu morava em cima de um morro, eu não lembro o nome né? Eu só Eu só lembro que o morro, eh quando o pessoal assaltava caminhão, deixava o caminhão cair do morro lá embaixo, né?

E aí a gente ia lá pegar Coca-Cola, Danone, que eles roubavam os caminhão e a gente ia lá. Eh, também achava muita gente sem cabeça, morta lá. Era Era bem difícil, né? Aquele assina Cristina da Silva no sobrenome. Só que se você é de Ribeirão Preto, provavelmente já ouviu falar sobre ela. Mas com certeza não foi com o sobrenome escolhido pelos pais, a Sueli e o Laudelino.

Você pode ter visto, ouvido ou sabido dela com outro nome. É a história da Ribeirão Preto da Kelly do Catas Sonho que eu vou te contar nesse episódio.

Eu sou a Dani Antunes e esse é o Escuta Aqui, um podcast orgulhosamente Caipira. Aqui eu conto histórias do interior de São Paulo. Essa é a temporada Escuta Aqui a história Recontada. Em cada episódio eu recorto uma parte da história de Ribeirão Preto e reconto por meio da vida de uma mulher.

Neste episódio você vai saber como a Kelly quis ser princesa antes de ser candidata à Rainha das Catas. Escuta aqui essa história.

E assim, e antes, né, lá em São Paulo, eu sempre tive o sonho de ser princesa, né? Desde que morava lá na Baronesa, quando às 6 horas da tarde, ela e o irmão já sabiam sabiam para onde deveriam ir. A gente se escondia debaixo da cama porque a gente já sabia que tinha tiroteio todo o dia. Eles moravam naquela comunidade porque era o que dava para pagar.

A Sueli e o Laudelino, que são a mãe e o pai da Kelly, se apaixonaram e fugiram para São Paulo. Ela tinha uns 14, 15 anos. Aí os dois descobriram que não se vive só de brisa e de amor. A vida na capital não foi fácil. Vieram os filhos, Laudelino trabalhando como pedreiro, Sueli como doméstica, cozinheira. Comida dela é muito boa.

Um dia o casal decidiu fazer o caminho de volta de São Paulo para Ribeirão Preto. E meu irmão tinha muita bronquite, São Paulo é muito frio, o custo de vida seria mais baixo. E foi melhorando, né? Minha mãe, a gente já não morava mais num barraco. O chão já não era mais de terra, então já era casa de tijolo. Com chão de cimento. Era vermelhão, né? E era muito bom poder limpar o chão eh e e ver que o chão tava limpo, né?

E encerar o vermelho. A casa ficava na Avenida Primeiro de Maio, na Vila Virgínia. E não não existe mais aquela casinha? A vida tava melhor? Tava. Mas sobreviver ainda era difícil. Foi a Aí que para ajudar a pôr comida em casa, a Kelly e o Marcos decidiram fazer em Ribeirão o que já faziam quando viviam na Baronesa. Então eu, meu meu irmão, né?

A gente é ia no The Books, né? Hum. Pegar recicláveis lá O dinheiro que eles conseguiam com a venda do que encontravam na rua, eles usavam para comprar arroz e feijão a granel. Comprava de canequinha, né? No no na venda no mercadinho. É, a gente podia comprar uma caneca de feijão, uma caneca de arroz, então um pouquinho que a gente vendia, né? A gente conseguia comprar a canequinha para fazer é, a refeição, né? Daquela hora, daquele dia.

Vendiam o almoço para comprar a janta. Bem cedo, a Kelly descobriu que aquilo que alguém não quer pode virar renda para outras pessoas. E sem saber, estava começando uma outra história para sua vida. vida.

A gente aprendeu a chamar de lixo ou simplesmente de recicláveis, aquilo que a Kelly e o Marcos pegavam na rua e vem pediram para ajudar em casa. Lixo é o material tudo misturado, né? A Marília Vendruscolo é engenheira ambiental e diretora da Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto, a AIRP. É, nós temos três tipos de resíduos, né?

Que é o rejeito, o reciclável e o orgânico. Se ele tá misturado tudo junto, isso é um lixo. E aí não dá para separar. Quem vai colocar mão nisso para separar na se tá separado, é resíduo e tem destino nobre. A gente tem o rejeito que é o que deve sair, é, que deve ir para o aterro sanitário, que é só 10% que tem em casa, que é tipo a fralda, papel higiênico, absorvente, fio dental. minúsculo, pouca e e leve.

E aí tem os resíduos. Aí 45% é orgânico, que a gente deve compostar. Um processo relativamente simples que transforma o resíduo orgânico em adubo. E os outros 45 por cento é reciclável, que dá para reaproveitar de alguma forma e virar produto de novo para e colocar no ciclo, né? Plástico, vidro, eletrodomésticos, eletrônicos, latas, cartelas de medicamentos, embalagens.

De acordo com a legislação brasileira? Essa lei é muito recente. Quem é o gerador do resíduo, ele é responsável pela destinação final. A Marília tá se referindo à política nacional de resíduos sólidos, que é de 2010. Então, todo mundo, pessoa física ou pessoa jurídica, ela é responsável por por aquilo que tá gerando. Não é, é, você tem que saber para onde ela foi.

Você tem que abraçar, se você é gera, da mesma forma que você vai lá e busca no supermercado o a comida que você vai comer, por que que você não leva a embalagem de volta?

Seres humanos produzem resíduos, sei lá, desde Adão e Eva. Isso quer dizer que em Ribeirão Preto, as pessoas produzem resíduos desde que esse lugar era conhecido como Vila de São Sebastião.

Agora imagina, nesse tempo aí, a vida era rural. A Revolução Industrial tinha começado lá na Europa, mas no Brasil mal mais existia iluminação pública. E existiam muitas pessoas escravizadas. Sabe o que faziam com os resíduos? Com postagem.

Como os resíduos eram praticamente só orgânicos, viravam adubo ou alimento para criação, como porcos, galinhas. Aí você já tá pensando: Tá, mas isso é muito antigo. Não dá nem para comparar. É verdade, mas aguenta aí que vai valer a pena.

Então, chegou o dia em que as pessoas deixaram de consumir quase que exclusivamente coisas que se decomunham rapidamente. Elas passaram a consumir também papel, lata, vidro, eletrodomésticos, eletrônicos. Essas coisas todas foram entrando na vida das famílias no século passado. E para onde ia isso tudo?

Olha, eu quase não acreditei quando eu li isso, mas até 1972, que foi o ano que eu nasci, tudo, absolutamente tudo o que era descartado pelas pessoas era depositado em terrenos baldios na periferia da cidade. terrenos baldios na periferia da cidade.

Em 1978, que foi um ano antes do meu irmão nascer, o lixo passou a ser levado para uma área na Rodovia Abrão Asséde, que é a estrada que liga Ribeirão Preto à Serrana e ficou assim até o final dos anos 1980.

E eu me lembro muito bem de uma reportagem na TV Ribeirão, que é como se chamava a EPTV no século passado, mostrando pessoas vasculhando uma montanha de lixo. A imagem mostrava seres humanos, adultos e crianças, misturados a urubus e toda sorte de animais que se sustentam do lixo. E todos ali procuravam uma maneira de sobreviver.

Eram 300 pessoas. Para, digamos assim, facilitar o trabalho, essas pessoas colocavam fogo na montanha de lixo. Dessa forma, eles davam sobrevida para o lugar. E foi assim, até que o volume se tornou praticamente incontrolável. Ninguém dava conta de tanto lixo, nem o fogo e nem eles.

Aí tudo aquilo começou a invadir a rodovia. O problema transbordou. E foi nesse depósito de lixo que começou a primeira experiência de profissionalização dos catadores de Ribeirão Preto.

Este fato coloca na biografia da cidade, o título de uma das primeiras cidades do Brasil a implantar um programa de coleta seletiva, que nunca foi contínuo, nem eficiente, mas fez surgir as cooperativas de catadores, como a Mãos dadas e o Cata Sonho, que hoje se chama Cooperagir.

Eu quero pelo menos um salário mínimo todo mundo receba. Hoje, o nome da cooperativa que a Kelly coordena é Cooperagir. Bom, só que chegar nesse ponto da história, não foi como seguir a estrada de tijolos amarelos para alcançar um castelo. Então, eu vou voltar um pouco. Com 12 anos, a Kelly entrou na guardinha.

É, então, pela polícia militar a gente ficou eu e o meu irmão até Os 18 anos. Precisava ajudar o sustento da casa. Então, a gente ganhava meio salário mínimo, né? Mas juntando os dois já dava um, né? E aí a gente foi. Depois trabalhou num escritório de contabilidade, até que conseguiu montar uma lojinha no CPC.

É, então a gente fazia feira, vendia roupa, brinquedo, CD, na época, né? Que tinha aqueles CDs. Vendeu o negócio no ano 2000. depois de perder todo estoque numa enchente. E acabou com tudo.

Então, depois disso eu resolvi prestar concurso, porque tava muito difícil a situação. Foi a gente comunitária de saúde, ou melhor? Eu virei mosquito da dengue, a gente fazia teatro na rua, no calçadão, já fui zé Gotinho também, né, para incentivar, né, os pais a levar os filhos a tomar vacina.

E seguiu prestando outros concursos, porque além de ser princesa, ela também sonhava em vestir uma farda. A de guarda municipal. Meu marido, minha família, meus amigos de trabalho, ninguém acreditava que eu poderia passar porque eu sou pequenininha. Lembra? Eu tenho 49 kg, 1,60 m. Não é exatamente o porte que me medo.

Eu não tenho porte de guarda. Mas não tinha gente. Só que eu pus na cabeça que eu ia ser guarda. Então, eu me via como guarda, eu sonhava que eu era guarda, eu conversava como guarda, com os guarda. Eu tinha certeza que eu ia ser guarda. Aí ela armou uma estratégia, né? E tanto é que no dia da prova típica de alguém que tem fé. Eu fechei o olho, sabe? E se eu pudesse ter gravado, né? Isso para mostrar.

E onde o lápis caía, Eu fazia o X. Porque eu tinha certeza que eu ia passar. E passou. Sem estudar. Né? Não foi das primeiras colocadas. Eu só queria passar, não importava aonde. Eu consegui passar. Primeira meta alcançada. E E foi. E Hum eu consegui passar acho que 52,5% lá embaixo. Mas tudo bem. Fiquei feliz. Segunda fase, prova física.

A gente Nos treinamentos eu não conseguia completar todo o ciclo, né? Eu tinha que dar, por exemplo, seis voltas, conseguia dar duas voltas e parava, meu fôlego não dava. Mais uma vez, tem fé. Isso lá na cava do boss. O treinador de lá falava: "Kelly, desiste, você não vai passar". E essa prova o que que era? Correr na pista? 2900 m em 12 12 minutos.

Você deve conhecer alguém assim, determinado. É, e todo mundo que que estava lá correndo conseguia e me olhava com aquele desprezo tipo: "Ah, ela não vai dar conta, ela não vai conseguir". Tem quem chame de teimosia também. Quanto mais eu ouvia isso, ouvia ou olhava para o rosto deles e via o desprezo, mais força eu tinha para acreditar que eu ia conseguir. Aí vem a prova, a primeira parte. No tiro de 50 m eu passei, chegou Na segunda a parte eram seis voltas.

Eu dei duas voltas, parei. Minha perna travou, Não tinha fôlego. Mas tinha fé. Gente, se eu cheguei até aqui, mas porque que eu não vou acabar? Olhei para o céu, o céu tava azul, né? E eu comecei a conversar com Deus. Hum.

Senhor do céu, se eu cheguei a estar aqui, não deixa eu parar, né? O que que tá acontecendo? Por que que eu não tô tô sem força, né? Me dá força porque eu acredito que eu acredito que eu sou capaz. E aí bateu um vento gelado em mim assim e tudo pareceu muito milagroso. E instantaneamente a minha dor toda passou. Foi quando ela ouviu uma voz. Né? E eu falei: "Deus tá falando comigo.

O vento gelado, a voz falando com ela, a fé, a vontade, tudo empurrou a Kelly e ela conseguiu terminar. É, depois eu fui ver que não era. Não. Não era Deus. Era um guarda municipal que tava lá e que como eu queria muito ser guarda e conversava muito com eles, ele tava ali, né, para ver e começou a gritar, porque ele viu a parada ali. Uhum. Ele tava torcendo, né?

Passei a um monte de gente que tinha me passado e eu consegui correr 400 m a mais do que eu precisava. Sabe porque eu acreditei? Ela foi trabalhar na rua como guarda municipal. Era isso que ela queria, certo? Não, nem tão certo assim. Aquela alma de catadora de recicláveis estava ali pulsando embaixo do uniforme de guarda municipal. Ela tinha se tornado também eco designer.

Quer dizer, aquela transforma resíduos em objetos. Por exemplo, pneus, em poltronas, brinquedos para crianças, essas coisas. Aí numa festa de Santos Reis no bairro da Vila Tibério, ela conheceu a advogada Samantha Pineda, que na época era presidente do Fundo Social de Solidariedade da Prefeitura de Ribeirão Preto.

A combinação da guarda municipal, que foi catadora e é ecodesigner, deu um match perfeito com o projeto que era resultado de um convênio entre a prefeitura e a USP, o Catasônia, uma cooperativa para tirar pessoas da rua valorizando a atividade que já exercem, a coleta seletiva de resíduos.

Hoje eu sou guarda municipal, sou coordenadora do projeto Catasônia e também coordeno o comitê de atenção às pessoas em situação de acumulação. E também, né, pela guarda municipal eu cuido de 50 semi-abertos, que são as pessoas, né, que cuidam da zeladoria da cidade nesse momento.

E eu te falei no começo, né, que a Kelly também conquistou o sonho de ser princesa. Hoje eu consegui realizar o meu sonho, né, de morar num castelo. Eu consegui morar eh comprar um um sobradinho e eu fico olhando lá de cima, me imaginando agora para mim que, eu, eu sou uma princesa e eu me sinto uma princesa lá no meu castelo. A meta de ser a rainha da sucata, fui eu mesma que inventei.

Eu quis ser guarda, eu sou, eu quis é, cuidar dessa, dessas pessoas, né? É, não é fácil, como eu disse no começo, né? Não é na hora que a gente quer, né? É na hora que Deus fala assim: "Ó, chegou a hora, então Hum. eu estou aqui firme, né? Tentando, é, esperando chegar a hora de dar tudo certo. certo? E eu consegui empregar aqui 200 pessoas, que a ideia do projeto é essa, tirar 200 pessoas da rua.

Assim que eu consegui todo o maquinário, né? Eu quero que a Transformando cidade o espaço no bairro da Lagoinha em um centro de logística reversa. Né? Para receber todo o material que a cidade produz, né? Isso em parceria com as mãos dadas, que a Ribeirão Preto tem outra cooperativa, né? Então a gente vem para somar, né? Porque Ribeirão é recicla ainda um 1% do seu resíduo. Tem muito resíduo virando lixo. Dá para fazer melhor, se tiver mais cooperativas, né?

A gente consegue incentivar mais pessoas. Incentivar a separação dos resíduos e levar até pontos de coleta nas cooperativas ou nos ecopontos. É, é porque venderam para nós esse famoso rag, né? Coloca o lixo na porta de casa que passa um caminhão que sobe magicamente. Sobe magicamente.

Passa um caminhão some magicamente O lixo na porta de casa some magicamente magicamente não é. E como ninguém faz nada sozinho Então a gente vem para somar, né?

Este é o Escuta Aqui, um podcast orgulhosamente Caipira. Aqui eu conto histórias do interior de São Paulo. Este episódio faz parte da temporada A História Recontada. iniciada pela lei Paulo Gustavo de incentivo à cultura da Secretaria Municipal da Cultura, Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. Visita lá o site escutaquipode.com.br. Tem todos os episódios de todas as temporadas e segue nas redes sociais no arroba escutaquipode.

Neste episódio eu usei informações da dissertação de mestrado em Ciências Sociais de Nicolas de Camargo Pirani da UFSCAR, o título da dissertação. Então é: sustentabilidade e a gestão compartilhada dos resíduos sólidos no município de Ribeirão Preto, conflitos e desafios. A trilha dos episódios dessa temporada é do músico Fábio Bergamini, do Rubinho Antunes e do grupo Pod Café.

Os sons são do Free Sound, da biblioteca de áudios do YouTube e do Fábio Bergamini. Esse episódio foi gravado no estúdio Nova Nave. E sabe o que você pode fazer? para apoiar esse projeto, seguir no aplicativo onde você está ouvindo, vai lá e avalia, comenta com a sua turma, compartilha no WhatsApp, Instagram, deixa um comentário no Spotify, é tudo isso que faz uma podcaster feliz. Até a próxima.

VLibras - Ação de inclusão GOV.BR - VLibras - Obrigado!